Querida Brasil

Querida Brasil,

Estamos juntos há quatro anos e é o mais longo que já fiquei em um só lugar. Nosso relacionamento tem sido agridoce como o açaí e apesar de alguns dizerem que tem gosto de “terra”… eu amo esse sabor.

Às vezes você me incomodou. Eu nunca pude entender por que você tem que colocar aquele brigadeiro super doce em cada sobremesa. Você se lembra de todas aquelas brigas que tivemos ao invés de não colocar açúcar no meu café? Sim, eu gosto mesmo assim. Negro e forte, como a minha alma. 😛 

Seu labirinto interminável de burocracia estava me matando. Sempre que eu pensava que estava prestes a sair, outra parede subia diante dos meus olhos. 

Você é o país em que fui roubada pela primeira vez. Eu corri atrás daquele cara que pegou meu primeiro smartphone da minha mão, gritando, alheia ao fato de que ele poderia atirar em mim. O policial apenas sorriu, com a mão em um saco de pipoca: “Ah, você foi roubada? Que pena, meu amor.”

Você me fez chorar, mas você também me encheu de alegria tantas vezes. Sua natureza é de tirar o fôlego! Suas florestas, rios e praias me fizeram parar e olhar, sem palavras, hipnotizada. O pôr do sol na praia de Maracaípe, o estuário mágico em Maragogi, os golfinhos e falésias na praia de Pipa, e a força humilhante das cachoeiras do Iguaçu… Essas vistas se tatuaram em meu coração para sempre me lembrar o quanto eu te amei. 

Seus doces frutos são os maiores presentes que você oferece ao seu povo: banana, maracujá, goiaba, cupuaçu, caju, cajá, mamão, guaraná, graviola, carambola e o amor da minha vida: açaí, também conhecido como o ouro negro da Amazônia.

Mas você esconde mais tesouros nas profundezas da Floresta Amazônica. Você os revela apenas para àqueles que têm a coragem de alcançar os mistérios da vida e da morte. A Ayahuasca me partiu em pedaços para que, tão leve e ilimitada, eu pudesse tocar o céu. Rapé me pôs de joelhos para que eu pudesse voltar para os meus pés e sentir meu próprio poder. Sananga queimou meus olhos para que eu pudesse ver verdadeiramente, sem engano. Kambô limpou meu corpo e minha alma das toxinas deste mundo – eu sempre carregarei essas nove cicatrizes pequenas no meu tornozelo como um distintivo de honra.

E nem me deixe começar a falar sobre a dança! Você é uma criatura tão musical! Adorei me perder em zouk, kizomba, forro, coco e samba de gafieira (a dança mais difícil já conhecida da humanidade, eu juro). Preferia as acrobacias complexas e desafiadoras de uma escola de dança do que as danças folclóricas, mas nunca esquecerei aquela noite em Xinxim da Baiana, onde estávamos na pista de dança só eu e a minha parceira de crime mais querida. Sob os olhos atentos dos orixás, nós queríamos girar e girar e girar até infinito…

Brasil, você tem magia. É aqui que eu realmente me tornei uma bruxa, vivendo com duas lobas, dois gatos e nossa coleção de cristais. Nós acendemos nossos incensos, uivamos para a Lua, estudamos “Mulheres Que Correm Com Os Lobos” e queimamos feitiços mágicos na praia no ritual da Lua Cheia. Aqui, eu estudei Reiki, hipnose, constelação familiar, mediunidade e trabalho com a sombra. Você às vezes me arrastou para o inferno, mas sempre me trouxe de volta à luz.

Eu não encontrei amor no Brasil, eu só encontrei amantes. Eu peneirei e classifiquei através das areias dos homens até que finalmente desisti. Talvez eu seja um dinossauro, talvez uma romântica incorrigível… Mas esse negócio de “ficante” simplesmente não é para mim.

No entanto, tudo é uma lição. Se você não me arrastasse na lama, como eu saberia que o que eu realmente quero é um homem leal, honrado e responsável, com autocontrole e força de caráter? Um homem que ainda acredita em amor. Um homem em quem você pode confiar. Oh, Brasil, sua realidade de namoro é uma selva e eu tive que me tornar uma leoa para sobreviver.

E aqui está o maior tesouro que você me deu: uma alcatéia das leoas. As lobas, as bruxas, as lutadoras. As mulheres maravilhosas e amigas que estavam sempre do meu lado: chorando, rindo, ficando putas, dançando, cozinhando, amando, odiando, orando, bebendo, fumando, mostrando nossas bundas nuas na praia de Tambaba. Elas eram exatamente o que eu precisava no meu tempo aqui: irmãs.

E é isso que você é para mim, Brasil – uma mulher. Uma mulher que luta e luta, que trabalha dois turnos e estuda nos finais de semana para ter uma chance melhor na vida. Uma mulher que vende saladas de frutas na praia, uma mulher que escreve poesia, dança e canta, mesmo quando seu mundo desmorona. Uma mãe solteira que outra vez faz um milagre para sobreviver. Uma mulher com cabelo cacheado (também conhecido como “cabelo ruim”), cabelos grisalhos, cabeça raspada… cabelo loiro, por que não? Você pode ser quem quiser! Uma mulher negra, branca, indígena, asiática… Uma mulher que orgulhosamente abraça seu corpo, não importa a forma out tamanho que ele tenha. Uma mulher que usa batom vermelho, glitter nas bochechas, ou nenhuma maquiagem. Uma mulher linda que foi quebrada tantas vezes por amantes infiéis, pais ausentes, políticos sexistas e homens repugnantes gritando atrás dela na rua. Mas você sempre se levanta, mais forte do que nunca. Você é uma guerreira, Brasil, e você me fez uma guerreira também. Aqui, eu comecei a praticar o Muay Thai, um esporte que eu não imaginaria estar fazendo em um milhão de anos! Mas você me deu coragem, Brasil. Você me deu força.

Eu cresci muito desde que te conheci. Desenvolvi profissionalmente como professora. Fiz CELTA e CPE. Me tornei uma blogueira. Parei de blogar. Fiz o meu sonho de publicar meu primeiro romance se tornar realidade. Me tornei uma autora. E como meu corpo e alma se encheram com a energia criativa de Pachamama e Iemanjá, você me fez pensar em mais uma coisa… Talvez eu pudesse me tornar uma mãe também.

Carreira de escritora, amor, família – meus sonhos estão sendo cozidos no caldeirão cósmico de energia. E antes que o futuro se desenrole, quero agradecer pelo seu amor duro, Brasil. Hoje é o último dia de 2018 e o último dia do nosso longo e complicado relacionamento. E assim desejo a você por este glorioso 2019 muita alegria, paz, crescimento e prosperidade. Mas acima de tudo, desejo-lhe AMOR PRÓPRIO.

Cuide bem de seus filhos, eu amo muito muitos deles. Eu nunca vou esquecer você, Brasil. Por favor, lembre meu nome.

Com amor,

Sua Elena

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